Conclusão

A China Antiga, de constituição social e política imóvel e prolongada é, antes de tudo, uma construção histórica recente. Esta civilização possuiu na antiguidade um dinamismo todo próprio, sobre o qual observamos o desenvolvimento e a evolução de práticas culturais e econômicas derivadas, por um lado, dos tempos proto-históricos e, por outro, da interação com povos estrangeiros, em geral de ascendência étnica sino-mongólica. O Mundo chinês era essencialmente agrícola e artesanal e esse modo de vida, que tanto combateu para dominar e se harmonizar com o meio ambiente se contrapunha, culturalmente, ao sistema de vida nômade do norte, onde havia a prática intensiva da pecuária, criando a dicotomia “sedentário - civilizado” X “bárbaro - nômade”.

Como forma efetiva de transmissão dos conhecimentos, os chineses desenvolveram a ritualização das técnicas produtivas e interativas com a natureza, característica fundamental desta civilização. Na época de Confúcio, muitos desses rituais já haviam perdido seu sentido original, mas continuavam a ser defendidos como modelos ideais de conexão com a natureza (Lunyu, 3). Como afirma Granet, "A vida das aldeias está submetida ao ritmo das estações. No outono e na primavera, realizam-se as assembléias populares reunindo homens e mulheres que se entregam conjuntamente a brincadeiras e orgias: concursos para tirar dos ninhos os ovos das aves migradoras, lutas, perseguições, danças e cantos, colheita de plantas silvestres, batalhas de flores, justas em que se defrontam moças e moços numa dança ritmada por meio de canções improvisadas etc.; comedeiras e bebedeiras encerram tais jogos, enquanto se concluem trocas e vendas, à semelhança da própria feira.Quando o ano agrícola termina, efetuando-se então a volta à aldeia, os homens festejam entre si o fim da colheita; a celebração é feita com torneios de prendas. A estação morta vai começar; é ela inaugurada pela cerimônia do Grande No que anuncia a hibernagem dos homens e dos animais; disto participam apenas os homens; há danças com disfarces animalescos, ao som de um timbale de argila, os exorcistas exibem seus talentos, come-se e bebe-se, fazem-se apostas, adormece-se, enfim, na embriaguez, depois de amplas despesas, cabendo aos anciãos a presidência da agitação geral. A festa de Paqa fecha o período ativo que precede imediatamente o inverno; é celebrada pelos velhos da aldeia que, em vestes de luto e com o bastão na mão, convidam os homens a dar início ao retiro, a fim de preparar a renovação de outro ano" (1930/1979).

Mas a busca incessante por modelos efetivos de subsistência é que articulou, nos tempos remotos, as idéias de uma ciência chinesa primitiva que seria re-sistematizada no tempo das Cem Escolas. Isso resplandece, também, na forte atribuição que as técnicas tiveram no desenvolvimento material da civilização, contribuindo para os avanços inúmeros obtidos no campo da metalurgia, cerâmica, trabalho artesanal, fabril, etc. E todas essas conquistas foram alcançadas tendo por raiz os sistemas cosmológicos naturais, que sobreviveram até hoje na forma de teorias elementares sobre o espaço, o corpo e a natureza; "Com a civilização chinesa, chegamos a um panorama do mundo e da ciência diferente, em muitos aspectos, daquele característico do Ocidente. [...] Mas para entender bem suas realizações devemos ter em mente que, desde os tempos mais primitivos, os chineses encaravam o universo como um vasto organismo, do qual o homem e o mundo natural representam apenas uma parte. Esse ponto de vista influenciou profundamente o modo pelo qual eles explicavam os fenômenos naturais; em alguns casos, isso os ajudou a se antecipar ao Ocidente na busca de explicações para muitos fatos; mas, em outros, impediu-os de achar a verdadeira interpretação para o comportamento do mundo. Um segundo fator que também desempenhou papel importante foi a rejeição - ou sua falta de crença - de toda espécie de divindade pessoal onipotente como um poder mais alto a governar o universo. Algumas conseqüências desse fato serão consideradas mais adiante. Os chineses sempre demonstraram um extraordinário senso prático, uma imensa habilidade em aplicar todos os conhecimentos a fins práticos. Entre os povos primitivos, eles eram cientistas práticos par excellence, [...] como veremos claramente, não foi apenas em tecnologia que os chineses mostraram seu pioneirismo; eles tinham alguns pontos de vista científicos que eram muito avançados para a época, embora freqüentemente os formulassem em termos práticos". (Ronan, 1986)

É o caso dos avanços obtidos no desenvolvimento da produção que culminaram, por exemplo, com o domínio fabuloso das técnicas de irrigação, principalmente no final dos Shang, quando se tornam uns dos fatores primordiais na estruturação das vidas comunitárias. Igualmente, estas concepções sobre o natural sofriam (e se reproduziam) no campo ideológico, influenciando as organizações sociais.

A China Antiga era um lugar onde o poder político se exercia, antes de tudo, pelo atributo cósmico da execução da força. A concepção de Estado, no entanto, significava ideologicamente uma entidade regularizadora da vida cotidiana, cuja função era permitir a reprodução da sociedade e assegurar as ligações com o Céu. Embora responsáveis pelo povo, as diversas formas de governos chineses antigos não inibiram a tirania, mas criaram a consciência da existência de segmentos sociais que haviam de ser observados e, em certa medida, atendidos, sob o risco de revolta e corrupção dos costumes. No texto A Grande Declaração, do Shujing, esta concepção já está manifesta: “O Céu se compadece do povo. O Céu realiza aquilo que o povo deseja”.

A manipulação do Calendário, por exemplo, é um desses atributos de poder. Desde os Zhou, (mas com uma maior intensidade na época Han) os monarcas se encarregavam de promulgar as datas de plantio, colheita, regulação de atividades econômicas e sociais, etc.; "Durante cada mês de primavera, o Filho do Céu ocupa um dos três quartos do Mingtang situados a leste e neles circula ritualmente num carro em forma de fênix ornamentado de bandeiras verdes, ao qual se atrelam dragões verdes. O Soberano veste-se de verde, cor da Primavera, e adorna-se de jade, a fim de estar em harmonia com a cor dos bosques. Nos meses de verão, o Filho do Céu passa a morar nas salas do lado sul do Mingtang (na China antiga, a posição do sul era invertida em relação à. que lhe atribuímos no Ocidente, isto é, os aposentos do sul, no Mingtang, ficavam no ápice do quadrilátero do edifício). O carro em que circula é então vermelho, bem como as vestes do Soberano e os jades ornamentais. Os cavalos são ruços, de caudas negras. O fogo, elemento do verão, tem a propriedade de elevar-se: proibidos são, pois, os trabalhos que impliquem em aplainar a terra, bem como em cortar árvores altas. Indultos são concedidos aos criminosos. Recomenda-se o retiro e evita-se o excesso de agitação. É o momento da separação máxima entre o Yin e o Yang e, portanto, tudo convida à meditação e não às atividades corporais. A vida sexual, própria da primavera, deve reduzir-se ao mínimo. O sopro vital deve ser conservado e não sofrer agitações através de paixões. No verão não se fazem guerras. Seguindo-se ao terceiro mês de verão, há um período intermediário em que o Filho do Céu, no aposento central do quadrilátero do Mingtang, simboliza estar no eixo de seu reino. De lá ele observa o “ciclo dos astros em torno da Viga Celeste (Tianji)”, constituída essa pela constelação da Ursa Maior. O Filho do Céu veste-se então de amarelo (cor da terra), circula num grande carro feito de uma prancha quadrada (símbolo da Terra), a qual cobre um pálio arredondado (símbolo do Céu). O Imperador, colocando-se entre um e outro símbolos, representa o Intermediário Supremo no eixo do mundo. O Outono, por sua vez, é uma estação de justiça e repressão. É quando o Yang, força positiva, declina e perde terreno para o Yin, pólo negativo. O Filho do Céu, acompanhando o ritmo natural do Universo, passa a viver a oeste do Mingtang, lado do sol poente. O gavião lança-se, no outono, à caça e à morte. O Soberano imita-o e circula no seu carro de guerra, ao qual se atrelam cavalos brancos de crinas negras. O Filho do Céu veste-se de branco, cor do luto na China. Seus jades são brancos e ele alimenta-se de plantas fibrosas e carne de cão. Impera o metal, elemento de que se fazem as armas. No Outono é propício castigar os opressores e os negligentes. As prisões são reparadas. O Céu e a Terra começam a mostrar seu rigor. A pena de morte pode, então, ser aplicada aos crimes sérios. Não há mais liberalidade e feudos não podem ser distribuídos aos vassalos: a época é de recolher e não de conceder. Devem construir-se muralhas e edificar-se cidades. Os depósitos de cereais devem estar repletos, à espera do Inverno. No último mês do Outono, há o retorno dos campos, onde se passa a vida na primavera e no verão; o fogo, que se acendera nas regiões do plantio, “é levado às cidades e vilas”. Interrompem-se as atividades nos campos. No Inverno, o Filho do Céu retira-se para a “Sala Escura” (Xuantang) no Mingtang, situada ao norte do Palácio (isto é, na parte inferior do quadrilátero, pois como o norte corresponde ao elemento água, sua propriedade é descer e não elevar-se, como o fogo). “O Sopro Celeste ausenta-se da Terra; o Sopro Terrestre afunda num abismo”. Como no Verão, quando existe um afastamento entre Céu e Terra, também no Inverno (já que os opostos se tocam) “não há mais comunicação entre um e outro”. “Tudo está finalizado, tudo está fechado: é então que o Inverno se instala”. Para aumentar a energia vital e renovar as alianças humanas, organizam-se grandes festas, em que todos se alcoolizam. O Soberano, no Xuantang, circula num carro de cor escura, ao qual se atrelam corcéis cinza - ferro. Suas roupagens são negras, ornamentadas de jade azul - escuro. Como no verão, o sábio, no momento em que Yin e o Yang estão em conflito, retira-se e permanece em repouso. Ele procura atingir urna paz interior que auxilia o Yin e o Yang a reencontrarem tranqüilidade. Sacrifícios são realizados no último mês de inverno, a fim de que o novo ano, já próximo, seja propício. Finalmente, o Rei promulga um novo calendário"(Jopert, 1979).

Se o Calendário falhava, a população em geral (incluindo grupos da elite) tendia a achar que os soberanos não estavam mais preparados para administrar a vida do império, o que levava a conflitos contínuos contra os piores monarcas.

De fato, o pensamento chinês sempre calcou sua alternância entre o pragmatismo necessário a sobrevivência com uma perspectiva ideal de organização natural-social. Um dos elementos fundamentais dessa civilização é sua interminável busca pela harmonia com o cosmo; sobrevivência, talvez, dos tempos em que os antigos habitantes proto-históricos lutavam para compreender o meio ambiente que os cercava e aproveita-lo da melhor forma possível.

Este pensamento, porém, como tudo mais que a China produziu, sofreu uma ação benéfica do tempo, que o aperfeiçoou e o tornou complexo e sutil. A evolução abrangente da cultura material chinesa se deu graças ao longo tempo de maturação pelo qual passou, apresentando-se ao mesmo tempo variada e uniforme em alguns aspectos. Disso os chineses antigos tiraram a importante lição de articular a linguagem ao real, tendo em vista sua crença na atuação da palavra escrita e falada como reprodutoras, sucitadoras da ação mental no plano físico; "Ao analisar a ciência primitiva dos chineses, os historiadores observaram uma vantagem, ausente no estudo da ciência de qualquer outro povo: a escrita chinesa. Os ideogramas exprimem uma idéia e não o som da palavra que representa essa idéia; portanto, a escrita chinesa permanece essencialmente a mesma, desde os tempos antigos, e assim, hoje, pode-se ler um texto primitivo com a mesma facilidade com que se lê um texto moderno" (Ronan, 1986).

Diante deste quadro podemos observar, por fim, que a antiga civilização chinesa criou os necessários parâmetros pelos quais desenvolveu uma estrutura de vida que, em todo seu dinamismo, teve uma preocupação intensa em salvaguardar o antigo, fomentando a criação de um imaginário capaz de se sobrepor ao real.

As contraposições entre a cultura material e a tradição histórica clássica denotam a intensa necessidade que temos de continuar estudando a civilização chinesa em seus variados nuances que nos apresentam, acima de tudo, a possibilidade de repensarmos a nós mesmos quando defrontados com uma concepção eficaz de compreensão do mundo que diferia (e ainda, difere) em muito dos nossos métodos de percepção naturais e científicos. E, por isso mesmo, o estudo da China será sempre uma oportunidade de reavaliar as nossas opiniões em qualquer campo de estudo.