Historiografia Moderna

Na Europa, os estudos sobre a China foram bastante imprecisos até o início da Era moderna. Antes disso, versões históricas como a de Marco Pólo, atualmente bastante discutíveis, eram utilizadas e aceitas como adequadas (Wood, 1997).

A virada nessas concepções veio com o impacto das navegações mundiais realizadas no século XVI. Ao se depararem com uma realidade bem diferente daquela concebida pelos seus antecessores medievos, portugueses e espanhóis tiveram que por mãos à obra e iniciaram uma pesquisa maior sobre as civilizações do Oriente, ainda que sobre o seu prisma colonialista e essencialmente cristão. A iniciativa lusa, em especial, rendeu frutos, já que os missionários por eles levados para as colônias orientais foram, por muito tempo, a fonte principal de informações que toda Europa recebia. Com grande sucesso, os mesmos conseguiram se instalar nas cortes chinesas, possuindo uma significativa influência na assessoria aos assuntos estrangeiros até o século XVIII.

Neste mesmo período, porém, vemos que o interesse econômico e político de Inglaterra, França e Holanda havia aumentado significativamente em relação ao Oriente, e o declínio do poder Ibero abriu as portas dessas civilizações a novos contatos.

Este processo foi acompanhado pela evolução da cultura e do pensamento ocidentais. Toda uma geração de pensadores franceses, alemães e ingleses buscou avidamente identificar e analisar as formas de filosofia e história vindas de China e Índia. O fascínio despertado pelas teorias confucionistas, por exemplo, puseram variadas vezes em xeque as realizações do proselitismo cristão. Mas este foi um período de intensas trocas de informações e conhecimentos entre ambas as partes do mundo, sem que houvesse (vale ressaltar), uma predominância Ocidental nesta via, como muitas vezes a História moderna tenta passar.

As abordagens mais sérias sobre a China só começaram, no entanto, a partir do século XIX. Isso de deve a alguns fatores bem definidos: o Império chinês, até então, era bastante fechado à presença de estrangeiros, com exceção dos portugueses, restritos à Macau (Peyreffite, 1997). Estes períodos de xenofobia são cíclicos na História chinesa, devido às ameaças de invasão do território: os chineses já haviam vivido sobre o domínio de uma dinastia estrangeira (os Yuan, 1280-1368) e, nesta época, além da presença Ocidental, viviam sob o julgo de outra dinastia estrangeira, os Qing (1644-1911, de origem Manchu). Os traumas decorrentes destes períodos complicados, somados a incapacidade (e má vontade) dos estrangeiros em compreender a cultura chinesa gerou, por conseguinte, uma série de preconceitos e enganos. Foi preciso uma evolução dos métodos historiográficos e sociológicos para que as relações culturais pudessem se flexibilizar e se distender entre europeus e chineses. O momento inicial desta mudança foi, justamente, o conturbado final do século XIX.

Podemos adicionar a estes problemas o fato da China ter uma história milenar e complexa, e somente por caminhos tortuosos e fatigantes o monólito desta estrutura começou a ser dissecado, analisado, investigado e valorizado por suas características singulares e impressionantes.

Os primeiros historiadores modernos da China foram essencialmente literatos, que no período XIX-XX iniciaram o trabalho de tradução das obras clássicas e pesquisa dos “fatos” históricos. Duas vertentes se destacaram nesta época: a primeira, que creditava legitimidade à cronologia clássica chinesa, devido à sua aparente coerência; e a segunda, que tentou adaptar o modelo clássico greco-romano para o contexto indu-chinês. Assim sendo, a primeira corrente considerava a legitimidade dos conteúdos culturais chineses, conquanto a segunda tentava delimitá-la como uma manifestação aperfeiçoada da sociedade indiana.

Atualmente, História e Arqueologia tendem a comprovar a originalidade cultural da China e, embora a cronologia tradicional já não seja aceita sem as correções e análises posteriores, a segunda vertente (indu-chinesa) verificou-se uma construção totalmente irreal. No entanto, esta concepção se arraigou fortemente nos meios acadêmicos e no senso comum, o que nos gera, até hoje, uma série de enganos na interpretação e na análise do Oriente, tanto antigo quanto moderno.

Nesta fase dos estudos chineses (XIX-XX), podemos destacar importantes autores como Herbet Gilles, James Legge (ambos ingleses) e Edouard Chavannes, da França. Este último é considerado, em particular, o “pai” da moderna Sinologia francesa, por seus métodos amplos e abrangentes, que buscavam conjugar Arqueologia, Literatura e História, realizando basicamente um trabalho interdisciplinar.

Seu grande seguidor, e um dos maiores especialistas em China que o mundo já conheceu foi Marcel Granet, que nas primeiras décadas do século XX produziu livros diversos que, em muitos pontos, continuam atuais até os dias de hoje. Não obstante ser um grande Sinólogo, Marcel Granet também foi um especialista em métodos históricos e sociológicos, tendo formado vários dos autores que dariam ensejo à formação da Escola dos Annales, contribuindo na crítica e na reformulação das técnicas de análise sobre as culturas.

As guerras trouxeram para a China, no entanto, uma séria interrupção dos trabalhos históricos e arqueológicos. Em 1928, por exemplo, haviam sido descobertas grandes coleções de inscrições Shang-Yin em carapaças de tartaruga, fomentando a revisão das cronologias tradicionais em função da análise de genealogia dos ideogramas. (30) No entanto, na primeira década do século XX a China havia derrubado a Monarquia e instalado a República. E, na década de 30, já estava sendo invadida pelo Japão. Logo, houve muito pouco tempo para realização destes trabalhos inovadores com regularidade. Depois, com a segunda guerra, a revolução comunista e outros processos tumultuosos, a China só veio a recuperar suas pesquisas sobre Antiguidade com maior eficiência e constância na década de 60. Isso demonstra o quanto esta Nova História chinesa é recente. Para se ter idéia, o momento dourado da arqueologia chinesa ocorre nos anos 70, com a descoberta de novos sítios Shang e Zhou (os primeiros haviam sido descobertos na década de 20 e depois, na de 50) e do túmulo do imperador Qin Shi Huang Di (até hoje em fase de escavação, tendo em vista que as partes recuperadas provavelmente não correspondem nem a 1/5 do monumento como um todo).

A partir dos anos 50 a História da China começou, então, a ser reavaliada em várias partes do mundo. Autores como Chan Wing-tsit e Feng Yulan começaram a ser amplamente valorizados por seus estudos no campo filosófico chinês. O trabalho do Sinólogo alemão Richard Wilhelm, da década de 30, foi recuperado e divulgado por suas considerações únicas em torno da funcionalidade das idéias chinesas. Na arqueologia, o trabalho inovador de Kwang Chang trouxe uma nova luz sobre os períodos antigos. E o inglês Joseph Needham surge, depois desses anos 50, como o grande historiador das ciências sino-orientais.

Na China, a História esteve engajada no discurso marxista até o início dos anos 80, colocando o antigo pensamento chinês como uma sobrevivência reacionária e conservadora. A arqueologia trabalhou diretamente com métodos quantitativos, não dando muita margem para considerações cognitivas e simbólicas. No entanto, a partir desta época de distensão do sistema político, os chineses começaram também a lidar com outras vertentes culturalistas e o resultado disso foi um resgate interessantíssimo das antigas tradições, sob um novo olhar técnico e teórico. As tradições do pensamento e da cultura têm sido valorizadas pelos seus aspectos antropológicos e filosóficos, e a academia chinesa tem formulado propostas metodológicas bastante criativas, inseridas num contexto transculturalista que visa discutir todas as conceituações históricas (essencialmente ocidentais) sob um novo prisma (embora uma parcela significativa destes mesmos autores nativos esteja se utilizando deste expediente para re-afirmar uma suposta “superioridade cultural” chinesa... uma reminiscência xenófoba e sinocentrista derivada, como podemos ver, da fusão entre as sobrevivências culturais milenares com o revanchismo pelos tempos coloniais e pela formulação de um novo nacionalismo chinês).

Podemos afirmar, por conseguinte, que o estudo da China têm sido abordado por vieses variados. A Sinologia, enquanto “ciência das coisas chinesas”, tem tentado se livrar de sua pesada carga eurocentrista e colonialista para se tornar uma proposta abrangente e mais completa de estudo sobre a civilização, englobando um trabalho interdisciplinar na formação de especialistas. A História cultural também tem dado espaço a autores brilhantes, como Jonathan Spence e André Levy. A arqueologia chinesa tem se desenvolvido fortemente, mas quase sempre nas mãos de pesquisadores nativos. O grande desafio hoje, no estudo sobre a China tem sido, de fato, se livrar da incomoda bagagem dos tempos colonialistas (e racistas) que tantas deformações trouxeram ao campo das ciências humanas como também, esclarecer o público sobre os estereótipos múltiplos que se formaram em torno das culturas orientais, principalmente os de caráter esotérico.

Dando continuidade à nossa análise das visões modernas sobre a História da China Antiga, o que observamos, hoje, é um consenso em torno de alguns aspectos que envolvem a cronologia tradicional.

Em primeiro lugar, as fontes sobre as quais esta cronologia era estruturada derivavam, essencialmente, da ortodoxia confucionista. Assim sendo, podemos compreender que muitas das construções propostas pela antiga história chinesa, principalmente em torno das dinastias Xia e Shang-Yin seriam, na verdade, superposições da cultura Zhou sobre o passado. Isso fica evidente pelo trabalho arqueológico que envolve a descoberta da cultura Shang.

Inicialmente, ainda não existem comprovações diretas sobre a existência de uma Dinastia Xia. As duas culturas neolíticas existentes, a de Yangshao e a de Longshan, demonstram ser diferentes entre si, mas não existe nenhum indício de serem mais do que sítios proto-históricos (Barnes, 1993; Jopert, 1979:22-54). Mas, como afirmamos, a arqueologia continua se desenvolvendo: é possível, portanto, que num futuro próximo seja identificado algum indício que constitua uma prova definitiva sobre um sistema monárquico antigo denominado Xia. No entanto, isso ainda é suposição e por isso trabalharemos com o que temos.

Os momentos iniciais dos Zhou também são um pouco obscuros: depois do século VIII a.C. as datações melhoram, mas no caso das biografias dos personagens históricos, estas continuam um tanto confusas.

Para efeito comparativo, segue uma tabela entre a cronologia tradicional e a moderna, a partir da qual detalharemos, nos próximos capítulos, os períodos históricos e suas constituições.

*Notação: as datas registradas nos períodos de 841 a.C. do Shi Ji ainda são aceitas como corretas, sem grande contestação. A variação de algumas aparece, somente, em relação às biografias de algumas figuras importantes dos séculos VII-V a.C.



Períodos Tradicional / Moderna Arqueologia
3 patriarcas e 5 soberanos -2852 -2205 / Período Proto-Histórico
Imperador Yao -2356 -2255 / Cerâmica Preta e Pintada
Imperador Shun -2852 -2205 / Cultura Yang Shao e Long Shan
Dinastia Xia -2205 -1766 / Fase de Transição
Dinastia Shang -1766 -1122 / -1500 -1028 Bronze 1
Zhou anterior -1122 -650 / -1027 -650 Bronze 2
Zhou posterior -650 -221 / -700 - 221 Bronze Tardio e Ferro
Período Qin -221 -206 / -221 - 206 Teoria dos 5 Elementos
Han anterior -206 +9 / -206 +9
Han posterior +22 +220 / +22 +220

Vemos que a Cronologia tradicional coloca a cultura chinesa como uma das mais antigas do mundo, junto com as da Índia e do Médio Oriente. Tem se feito um grande esforço, dentro da China, para resgatar o valor das datações tradicionais, em função de uma suposta antiguidade longínqua que justificasse a “ascendência” cultural chinesa sobre as outras civilizações mundiais. Este trabalho, ideologicamente engajado, não tem conseguido grandes êxitos. Os avanços arqueológicos têm sido significativos, mas as tentativas de sobrepor as descobertas materiais às datações antigas são ocasionalmente falhas. A crítica que se faz a este trabalho é, sobretudo, quanto ao seu discurso nacionalista, tal como tem acontecido também com a História Indiana. Mas, felizmente, esta visão não é abrangente e mesmo em seus países de origem ela é contestada.