Desdobramentos

O ‘Ritual’
A China Antiga, de constituição social e política imóvel e prolongada é, antes de tudo, uma construção histórica recente. Esta civilização possuiu na antiguidade um dinamismo todo próprio, sobre o qual observamos o desenvolvimento e a evolução de práticas culturais e econômicas derivadas, por um lado, dos tempos proto-históricos e, por outro, da interação com povos estrangeiros, em geral de ascendência étnica sino-mongólica. O Mundo chinês era essencialmente agrícola e artesanal, e esse modo de vida, que tanto combateu para dominar e se harmonizar com o meio ambiente se contrapunha, culturalmente, ao sistema de vida nômade do norte, onde havia a prática intensiva da pecuária, criando a dicotomia “sedentário - civilizado” X “bárbaro - nômade”.
Como forma efetiva de transmissão dos conhecimentos, os chineses desenvolveram a ritualização (Li) das técnicas produtivas e interativas com a natureza, característica fundamental desta civilização. Na época de Confúcio, muitos desses rituais já haviam perdido seu sentido original, mas continuavam a ser defendidos como modelos ideais de conexão com a natureza e de moral social: "Yen Hui fez perguntas sobre a Bondade (ren). O mestre disse: “Aquele que se pode submeter ao ritual (li) é Bom. Se (um governante) pudesse um dia submeter-se ele próprio ao ritual, toda a gente debaixo do céu corresponderia à sua Bondade. Porque a Bondade é algo que deve ter a sua fonte no próprio governante; não pode ser obtido de outros”. Yen Hui disse: “Peço itens mais pormenorizados disso (a submissão ao ritual)”. O mestre respondeu: “Não olhar para nada que desobedeça ao ritual, não escutar nada que desobedeça ao ritual, não falar em nada que desobedeça ao ritual, nunca mexer mão nem pé em desobediência ao ritual”. (Lunyu, 12)
Como afirmou Granet, "A vida das aldeias está submetida ao ritmo das estações. No outono e na primavera, realizam-se as assembléias populares reunindo homens e mulheres que se entregam em conjunto a brincadeiras e orgias: concursos para tirar dos ninhos os ovos das aves migradoras, lutas, perseguições, danças e cantos, colheita de plantas silvestres, batalhas de flores, justas em que se defrontam moças e moços numa dança ritmada por meio de canções improvisadas etc.; comedeiras e bebedeiras encerram tais jogos, enquanto se concluem trocas e vendas, à semelhança da própria feira. Quando o ano agrícola termina, efetuando-se então a volta à aldeia, os homens festejam entre si o fim da colheita; a celebração é feita com torneios de prendas. A estação morta vai começar; é ela inaugurada pela cerimônia do Grande No que anuncia a hibernagem dos homens e dos animais; disto participam apenas os homens; há danças com disfarces animalescos, ao som de um timbale de argila, os exorcistas exibem seus talentos, come-se e bebe-se, fazem-se apostas, adormece-se, enfim, na embriaguez, depois de amplas despesas, cabendo aos anciãos a presidência da agitação geral. A festa de Paqa fecha o período ativo que precede imediatamente o inverno; é celebrada pelos velhos da aldeia que, em vestes de luto e com o bastão na mão, convidam os homens a dar início ao retiro, a fim de preparar a renovação de outro ano" (1979). Tudo, pois, estava organizado num infindável ciclo ritual, cíclico e perfeito na visão dos chineses antigos.

Ciência Chinesa
Mas a busca incessante por modelos efetivos de subsistência é que articulou, nos tempos remotos, as idéias de uma ciência chinesa primitiva que seria re-sistematizada no tempo das Cem Escolas. Isso resplandece, também, na forte atribuição que as técnicas tiveram no desenvolvimento material da civilização, contribuindo para os avanços inúmeros obtidos no campo da metalurgia, cerâmica, trabalho artesanal, fabril, etc. E todas essas conquistas foram alcançadas tendo por raiz os sistemas cosmológicos naturais, que sobreviveram até hoje na forma de teorias elementares sobre o espaço, o corpo e a natureza;
"Com a civilização chinesa, chegamos a um panorama do mundo e da ciência diferente, em muitos aspectos, daquele característico do Ocidente. [...] Mas para entender bem suas realizações devemos ter em mente que, desde os tempos mais primitivos, os chineses encaravam o universo como um vasto organismo, do qual o homem e o mundo natural representam apenas uma parte. Esse ponto de vista influenciou profundamente o modo pelo qual eles explicavam os fenômenos naturais; em alguns casos, isso os ajudou a se antecipar ao Ocidente na busca de explicações para muitos fatos; mas, em outros, impediu-os de achar a verdadeira interpretação para o comportamento do mundo. Um segundo fator que também desempenhou papel importante foi a rejeição - ou sua falta de crença - de toda espécie de divindade pessoal onipotente como um poder mais alto a governar o universo. Algumas conseqüências desse fato serão consideradas mais adiante. Os chineses sempre demonstraram um extraordinário senso prático, uma imensa habilidade em aplicar todos os conhecimentos a fins práticos. Entre os povos primitivos, eles eram cientistas práticos par excellence, [...] como veremos claramente, não foi apenas em tecnologia que os chineses mostraram seu pioneirismo; eles tinham alguns pontos de vista científicos que eram muito avançados para a época, embora freqüentemente os formulassem em termos práticos". (Ronan, 1986)
É o caso dos avanços obtidos no desenvolvimento da produção que culminaram, por exemplo, com o domínio fabuloso das técnicas de irrigação, principalmente no final dos Shang, quando se tornam uns dos fatores primordiais na estruturação das vidas comunitárias. Igualmente, estas concepções sobre o natural sofriam (e se reproduziam) no campo ideológico, influenciando as organizações sociais.
  Por conta disso, no campo científico, os chineses alcançaram, nas mais diversas áreas, avanços significativos que os alçaram à condição de nação mais desenvolvida do mundo até o séculos 17-18 d.C.. Diversas descobertas e invenções, que se julgava existirem apenas no Ocidente, também foram elaboradas e/ou compreendidas pelos mesmos, embora por um outro padrão lógico (a teoria Ying-Yang e da escola dos cinco elementos), o que dá, até hoje, um grande nó na cabeça dos pesquisadores ocidentais pouco acostumados com os sistemas de pensamento chineses, que julgavam estes como apenas representações místicas ou simbólicas. 
Desde a época Shang, como vimos, temos um trabalho de metalurgia em bronze avançadíssimo e refinado, junto com métodos arquitetônicos elaborados que produziram uma cultura material poderosa e profusa. Ao longo da época Zhou, outras descobertas foram sendo feitas, mas podemos datar com segurança os conteúdos da ciência chinesa na época Han, quando os mesmos começam a ser catalogados em campos específicos. 
Fontes preciosas de informação, os relevos encontrados na Dinastia Han mostram-nos aspectos fundamentais do cotidiano e do trabalho na China Antiga. Neste, observamos a mineração de sal.
Na área agrícola, os chineses dominavam os sistemas de irrigação e drenagem do campo, bem como a semeadura ordenada. Conheciam a adubagem e podiam definir os melhores tipos de cultura para cada tipo de campo. Possuíam, além das ferramentas tradicionais, maquinário agrícola, como moinhos d’água, para auxiliar nas tarefas agrícolas. O artesanato também já era bem desenvolvido, sendo que a cerâmica, conhecida desde a proto-história, alcançou níveis de virtuosismo na era Han. Como citamos, a fundição em bronze e ferro seria reconhecida até no Ocidente Romano pela sua qualidade (Plínio o Velho, em sua História Natural, cita sobre as qualidades do ferro chinês, bem como da seda e de outros produtos. Igualmente, no período Qin – Han surge o Yantienlum, ou Tratado do Sal e do Ferro, que legislava sobre o comércio dos mesmos). Os Han conseguiram, ainda, atingir a produção do ferro cromado e do aço, numa inventividade inaudita para época. 
A produção da seda ganha grande impulso, e surge nesta mesma época o papel. Na obstante, os chineses já haviam obtido avanços no campo matemático, conhecendo inclusive o teorema de Pitágoras, embora dessem grande valor ao que achassem ser de uso imediato (É o caso do livro Jiouzhang Sunshu, ou Nove Postulados da Matemática, datado desta época). Partindo desta perspectiva, eles desenvolveram o ábaco, que até hoje, nas mãos de um expert, vence calculadoras modernas em rapidez. Juntam-se a eles os estudos desenvolvidos no campo astronômico, capazes de possibilitar, pela datação de ciclos estrelares, períodos históricos precisos até o século –9, como os utilizados por Sima Qian. Os chineses haviam construído um armilar que representava estes ciclos, e que acompanhado pela difusão da bússola, do sismógrafo e do relógio d’água (clepsidra), criaram um maquinário singular como demonstração de domínio técnico desta civilização. E para terminar, a já famosa medicina tradicional chinesa aparecia praticando suas técnicas tradicionais, melhorando a qualidade de vida do povo com um método eficaz e seguro de profilaxia. 

Religião e Poder
Os indícios religiosos na China são variados. Na dinastia Shang, os deuses parecem ser elementos desdobrados das crenças xamânicas em forças da natureza. Existiam deuses para as regiões, para as substâncias, para os animais, etc. Sacrifícios humanos eram realizados nessa dinastia, mas foram gradualmente abolidos pelos Zhou. O que é interessante é a quase total ausência, na religião chinesa, de um mito de criação. Só muito tardiamente uma lenda do gênero surgiria, através de Pangu (Watson, 1969). A China e os humanos já existem nos primeiros escritos, e elas são um reflexo da ordem do Céu (Tian). Este Céu, que é tudo, significa uma noção natural de cosmos que transcende a existência dos deuses e dos espíritos, uma concepção próxima de uma ecologia natural que engloba as relações entre todos os seres. A origem dos chineses funda-se, pois, na história do seu processo de domínio do território, muito longe de problemas cosmogônicos. 
Os chineses antigos basicamente acreditavam em formas primárias de espiritualidade, sem termos certeza de que existiam noções claras sobre alguma forma de reencarnação:
“Quando morria alguém, os parentes subiam ao telhado e gritavam bem alto, ao espírito: "Ahoooooo! Fulano, quereis fazer o obséquio de voltar ao vosso corpo?" (Se o espírito não voltava, e a pessoa estava realmente morta) então assavam arroz cru e carne assada para oferendas, levantavam a cabeça para o céu "a fim de ver longe" (wang) o espírito e enterravam o cadáver. O elemento material descia então (à terra) e o elemento espiritual subia (ao firmamento). Os mortos eram enterrados com a cabeça na direção norte, e os vivos tinham suas casas com o frontispício voltado para o sul. Tais eram os costumes primitivos”. (Liji, 9)
 Adotaram também o culto aos antepassados e nas energias da natureza, e parecia existir a idéia de que havia um deus supremo, responsável pela administração do céu e dos outros deuses, além da terra. Desde Shang, os oráculos eram igualmente empregados na descoberta do futuro. Durante Zhou, mas principalmente em Han, a astrologia também se desenvolveu bastante. Um dos conceitos fundamentais do pensamento religioso, que em muito se funde ao das crenças naturais xamânicas é o da polarização das energias em Yang e Yin, ou “positivo e negativo”. Estas noções perpassam a organização de todas as coisas, e servirão de base para muitos estudos científicos na civilização chinesa, se manifestando inclusive na formação de uma escola. 
A organização da religião chinesa foi, por fim, bastante receptiva a difusão de práticas alquímicas e mágicas ao longo da história. Naturalmente aberta e sincrética, a religiosidade chinesa percebeu, na era Han, a modificação desse panorama com a introdução do budismo, o fortalecimento do taoísmo alquímico como religião e a ascensão do confucionismo como ética de estado, que terminou por absorver também  um caráter igualmente sagrado. 
Por conta disto, a China Antiga era um lugar onde o poder político se exercia, antes de tudo, pelo atributo cósmico da execução da força. A concepção de Estado, no entanto, significava ideologicamente uma entidade regularizadora da vida cotidiana, cuja função era permitir a reprodução da sociedade e assegurar as ligações com o Céu. Embora responsáveis pelo povo, as diversas formas de governos chineses antigos não inibiram a tirania, mas criaram a consciência da existência de segmentos sociais que haviam de ser observados e, em certa medida, atendidos, sob o risco de revolta e corrupção dos costumes. No texto A Grande Declaração, do Shujing, esta concepção já está manifesta: “O Céu se compadece do povo. O Céu realiza aquilo que o povo deseja”.

O Calendário
A manipulação do Calendário, por exemplo, é um desses atributos de poder. Desde os Zhou, (mas com uma maior intensidade na época Han) os monarcas se encarregavam de promulgar as datas de plantio, colheita, regulação de atividades econômicas e sociais, etc.; "Durante cada mês de primavera, o Filho do Céu ocupa um dos três quartos do Mingtang situados a leste e neles circula ritualmente num carro em forma de fênix ornamentado de bandeiras verdes, ao qual se atrelam dragões verdes. O Soberano veste-se de verde, cor da Primavera, e adorna-se de jade, a fim de estar em harmonia com a cor dos bosques. Nos meses de verão, o Filho do Céu passa a morar nas salas do lado sul do Mingtang (na China antiga, a posição do sul era invertida em relação à. que lhe atribuímos no Ocidente, isto é, os aposentos do sul, no Mingtang, ficavam no ápice do quadrilátero do edifício). O carro em que circula é então vermelho, bem como as vestes do Soberano e os jades ornamentais. Os cavalos são ruços, de caudas negras. O fogo, elemento do verão, tem a propriedade de elevar-se: proibidos são, pois, os trabalhos que impliquem em aplainar a terra, bem como em cortar árvores altas. Indultos são concedidos aos criminosos. Recomenda-se o retiro e evita-se o excesso de agitação. É o momento da separação máxima entre o Yin e o Yang e, portanto, tudo convida à meditação e não às atividades corporais. A vida sexual, própria da primavera, deve reduzir-se ao mínimo. O sopro vital deve ser conservado e não sofrer agitações através de paixões. No verão não se fazem guerras. Seguindo-se ao terceiro mês de verão, há um período intermediário em que o Filho do Céu, no aposento central do quadrilátero do Mingtang, simboliza estar no eixo de seu reino. De lá ele observa o “ciclo dos astros em torno da Viga Celeste (Tianji)”, constituída essa pela constelação da Ursa Maior. O Filho do Céu veste-se então de amarelo (cor da terra), circula num grande carro feito de uma prancha quadrada (símbolo da Terra), a qual cobre um pálio arredondado (símbolo do Céu). O Imperador, colocando-se entre um e outro símbolos, representa o Intermediário Supremo no eixo do mundo. O Outono, por sua vez, é uma estação de justiça e repressão. É quando o Yang, força positiva, declina e perde terreno para o Yin, pólo negativo. O Filho do Céu, acompanhando o ritmo natural do Universo, passa a viver a oeste do Mingtang, lado do sol poente. O gavião lança-se, no outono, à caça e à morte. O Soberano imita-o e circula no seu carro de guerra, ao qual se atrelam cavalos brancos de crinas negras. O Filho do Céu veste-se de branco, cor do luto na China. Seus jades são brancos e ele alimenta-se de plantas fibrosas e carne de cão. Impera o metal, elemento de que se fazem as armas. No Outono é propício castigar os opressores e os negligentes. As prisões são reparadas. O Céu e a Terra começam a mostrar seu rigor. A pena de morte pode, então, ser aplicada aos crimes sérios. Não há mais liberalidade e feudos não podem ser distribuídos aos vassalos: a época é de recolher e não de conceder. Devem construir-se muralhas e edificar-se cidades. Os depósitos de cereais devem estar repletos, à espera do Inverno. No último mês do Outono, há o retorno dos campos, onde se passa a vida na primavera e no verão; o fogo, que se acendera nas regiões do plantio, “é levado às cidades e vilas”. Interrompem-se as atividades nos campos. No Inverno, o Filho do Céu retira-se para a “Sala Escura” (Xuantang) no Mingtang, situada ao norte do Palácio (isto é, na parte inferior do quadrilátero, pois como o norte corresponde ao elemento água, sua propriedade é descer e não elevar-se, como o fogo). “O Sopro Celeste ausenta-se da Terra; o Sopro Terrestre afunda num abismo”. Como no Verão, quando existe um afastamento entre Céu e Terra, também no Inverno (já que os opostos se tocam) “não há mais comunicação entre um e outro”. “Tudo está finalizado, tudo está fechado: é então que o Inverno se instala”. Para aumentar a energia vital e renovar as alianças humanas, organizam-se grandes festas, em que todos se alcoolizam. O Soberano, no Xuantang, circula num carro de cor escura, ao qual se atrelam corcéis cinza - ferro. Suas roupagens são negras, ornamentadas de jade azul - escuro. Como no verão, o sábio, no momento em que Yin e o Yang estão em conflito, retira-se e permanece em repouso. Ele procura atingir urna paz interior que auxilia o Yin e o Yang a reencontrarem tranqüilidade. Sacrifícios são realizados no último mês de inverno, a fim de que o novo ano, já próximo, seja propício. Finalmente, o Rei promulga um novo calendário" (Jopert, 1979).
Se o Calendário falhava, a população em geral (incluindo grupos da elite) tendia a achar que os soberanos não estavam mais preparados para administrar a vida do império, o que levava a conflitos contínuos contra os piores monarcas.
De fato, o pensamento chinês sempre calcou sua alternância entre o pragmatismo necessário à sobrevivência com uma perspectiva ideal de organização natural-social. Um dos elementos fundamentais dessa civilização é sua interminável busca pela harmonia com o cosmo; sobrevivência, talvez, dos tempos em que os antigos habitantes proto-históricos lutavam para compreender o meio ambiente que os cercava e aproveitá-lo da melhor forma possível.
Este pensamento, porém, como tudo mais que a China produziu, sofreu uma ação benéfica do tempo, que o aperfeiçoou e o tornou complexo e sutil. A evolução abrangente da cultura material chinesa se deu graças ao longo tempo de maturação pelo qual passou, apresentando-se ao mesmo tempo variada e uniforme em alguns aspectos. Disso os chineses antigos tiraram a importante lição de articular a linguagem ao real, tendo em vista sua crença na atuação da palavra escrita e falada como reprodutoras, suscitadoras da ação mental no plano físico; "Ao analisar a ciência primitiva dos chineses, os historiadores observaram uma vantagem, ausente no estudo da ciência de qualquer outro povo: a escrita chinesa. Os ideogramas exprimem uma idéia e não o som da palavra que representa essa idéia; portanto, a escrita chinesa permanece essencialmente a mesma, desde os tempos antigos, e assim, hoje, pode-se ler um texto primitivo com a mesma facilidade com que se lê um texto moderno" (Ronan, 1986).

O Cotidiano
Como foi dito, houve uma preocupação muito forte, desde o início, com a questão da sobrevivência e da reprodução dos modelos efetivos de produção. Isso ocorria em virtude da grande população chinesa, que subsistia através da produção agrícola e da criação de animais, além da caça e da pesca. 
 As primeiras culturas rurais foram as de arroz e painço, embora outros cereais fossem produzidos. Porcos eram também criados, além de galinhas, mas os chineses comiam basicamente qualquer espécie de carne. Os períodos de escassez eram constantes, e o terreno exigia um preparo cuidadoso, que envolvia por vezes irrigação e adubagem cíclicas. Por estes motivos, os soberanos desde cedo foram obrigados a elaborar calendários agrícolas como uma de suas funções sagradas. Um ano de desgraça ou de fome significava a perda de bênçãos por parte do Céu, levando a ruína de sua credibilidade. Obviamente, as classes mais altas da sociedade tinham recursos para consumir os mais variados produtos, e se quisessem, até importá-los; mas a maior parte da sociedade vivia mesmo no campo ou de trabalhos secundários e artesanais, presentes na cidade, e por conseguinte sua vida era um tanto quanto difícil neste aspecto. 
A sociedade chinesa era organizada em princípios feudais não muito rígidos desde a época Shang, mas durante a época Zhou este sistema atinge seu apogeu e se estrutura de forma semelhante a que seria encontrada posteriormente na Europa medieval. Economicamente, as relações produtivas estavam próximas de uma fusão entre este mesmo sistema feudal articulado ao modo de produção comunitário; no entanto, no aspecto social, havia uma mobilidade social bem maior, levando em conta que os fatores nobiliárquicos ou religiosos não impediam a ascensão social de um camponês, por exemplo. Isso dependia, basicamente, de suas posses e da educação que pudesse obter. Dominando ambos, ele poderia ser promovido, ganhando um título, e faria parte do grupo dos nobres que se divertiam com jogos, músicas e caçadas de grande porte. 
Esta vida concentrada no poder feudal estava vinculada à imagem do Imperador, homem sagrado que havia recebido um mandato do céu para harmonizar a vida social e por a civilização chinesa no andamento do ciclo cósmico. As atribuições de seu poder variavam, e embora ele fosse tido como sagrado, por vezes alguns imperadores foram derrubados por nobres que julgavam que ele havia perdido seu mandato celeste; assim sendo, o “filho do céu” tinha poder enquanto tivesse respeito, ou uma casa nobre bem forte amparando-o nos bastidores do poder. O próprio filósofo Mengzi já admitia que, “não mais atendendo o anseio dos povos, o imperador já perdeu o sentido de sua função”. 
Esse jogo de relações muda radicalmente com a dinastia Qin. A criação de uma burocracia forte e centralizada na figura da casa imperial, em detrimento dos poderes feudais, manifestava a preocupação dos novos governantes em limitar as forças de caráter local, bem como criar um mecanismo de ascensão social para as classes menos favorecidas através do trabalho estatal. Não é de se estranhar tal processo de reformas, já que o fundador da dinastia Han, Liu Bang, era provavelmente um camponês ou pequeno funcionário da corte. Mas aí encaramos uma questão: onde ele havia se educado?  E como teria atingido este posto, tendo sido, talvez, apenas um humilde funcionário? 
 De fato, a melhor educação dessa época era a paga, e as famílias que podiam contratavam um bom tutor para educar seus filhos nas mais diversas artes. Mas existiam também escolas abertas ao público, embora não saibamos ao certo seu funcionamento, elas parecem ter obtido um certo sucesso. O que inferimos, com clareza, é que depois do período Qin esses centros educacionais se preocuparam em preparar alunos para os concursos estatais que começaram a surgir, em função dos diversos cargos que a burocracia oferecia. Durante a época Han, com a eleição do confucionismo como doutrina oficial, essa prática atingirá seu grau máximo, e o valor da educação será manifestado pela criação de escolas públicas em todo país, bem como de centros de estudos de alto nível, algo correspondente às nossas universidades. De fato, os chineses sempre deram valor à educação, e na Antigüidade, apesar da escrita complexa, parece ter sido o povo que mais sabia ler e escrever. 
  A escrita chinesa é um fator importante: ela não é alfabética, mas pictográfica, ou seja, composta de símbolos que possuem um código específico. Até Qin, existiam várias formas de escrita, mas unificação por ele empreendida uniformizou os pictogramas e ideogramas, permitindo que o chinês fosse mais facilmente compreendido. Tal foi o sucesso deste programa que ainda hoje lemos este mesmo conjunto de símbolos, sendo alguns modificados apenas pelos Chineses comunistas em período recente. 
  A escrita também se transformou numa arte, e a caligrafia uma técnica de estilos variados e impactantes. Os chineses dominavam no campo artístico a música (uma escala de apenas 5 tons, tais como os elementos), a pintura, a escultura e a fundição. Tal foi a maestria nessas técnicas que a descoberta da tumba do imperador Qin, por exemplo, causou espanto quanto foi constatado que dos milhares de soldados lá esculpidos em terracota, o rosto de cada um deles era diferente! 
Esses avanços técnicos se refletiram igualmente na medicina, que ainda hoje evolui tendo por base os conhecimentos da Antigüidade. Formas antigas de exercícios físicos, aliados as técnicas clínicas e terapêuticas criaram um conjunto de práticas medicinais que com certeza foram as mais avançadas e eficientes do mundo antigo. 
É impossível agrupar de forma completa os aspectos diversos da vida cotidiana na antiga civilização chinesa. Podemos falar do sismógrafo, da bússola, do papel e de outras criações, mas a clivagem que podemos realizar diante destes apontamentos é que a cultura chinesa criou um sistema abrangente de soluções para seus problemas materiais, evoluindo a partir disso para um modo de vida complexo e organizado, onde a funcionalidade do modelo estrutural era o fator organizativo fundamental na construção de sua sociedade. 
De qualquer forma, é interessante notar que tanto na vida urbana quanto na rural encontramos uma noção familiar forte, que se manifesta no agrupamento de várias gerações dentro de uma mesma casa. Não havia uma divisão sexual forte, pelo menos até o período de maturidade dos meninos (20 anos) e das meninas (15 anos), e em geral as famílias se dedicavam as mesmas atividades de trabalho. No espaço público, os chineses encontravam um momento de confraternização, através de peças de teatro, apresentações de música, jogos, do mercado ou nas casas de banho. Todos os assuntos são inicialmente tratados aí, até que se julgue conveniente trazê-los para dentro de casa ou não. Sujeitos à lei e a ordem celeste determinada pelo Imperador, os chineses tendiam a conjugar sua ação e seu modo de vida não somente através deste cotidiano como também, pelo calendário. 

A Guerra
A civilização chinesa não podia deixar de possuir seu aspecto bélico. São inúmeros seus manuais de guerra, e tendo inovado em termos de tecnologia militar, escreveram também tratados sobre táticas e sistemas de combate até hoje estudados. É o caso clássico do livro de Sunzi, a Lei da guerra, onde a guerra já era tratada como questão de Estado, mas com toda uma gama de implicações sociais:
“Sunzi disse: a guerra é de vital importância para o Estado; é o domínio da vida ou da morte, é o caminho para a sobrevivência ou a perda do Império: é preciso manejá-la bem. Não refletir seriamente sobre tudo o que lhe concerne é dar prova de lastimável indiferença no que diz respeito à conservação ou à perda do que nos é mais querido; e isso não deve ocorrer entre nós”. (Sunzi, 1)
 Até os tempos Zhou, a guerra chinesa era basicamente feita a pé, enquanto os nobres dispunham de carros de combate altamente desenvolvidos. Na época dos Han, além de desenvolver uma ágil cavalaria, eles empregaram também uma besta (provavelmente criada no período dos estados combatentes), arma precisa que só surgiria no Ocidente séculos depois. Apesar de desenvolver também eficientes técnicas de assédio, grande parte da mentalidade defensiva chinesa manifesta-se na construção da muralha, que na verdade é uma obra de ligação entre outras diversas pequenas muralhas realizada pelo imperador Qin shi Huangdi. Desde a época dos Zhou, a China foi obrigada a se confrontar com hordas bárbaras vindas do norte, de provável origem sino-mongólica. Pouco sabemos sobre eles, além de que deviam ser seminômades, mas que aparentemente possuíam uma organização política confederada e unida. Era vital, portanto, que os chineses muito cedo se preocupassem em organizar exércitos fortes, fossem para combater seus inimigos externos ou internos. Os números de soldados envolvidos nas batalhas por vezes parecem exagerados. Mas desde a época dos estados combatentes, eles vão se tornando aterradoramente grandes e reais. 
  Durante a era Qin e Han, os imperadores deram uma guinada nessa situação. Organizaram um exército profissional por um sistema de conscrição - ao invés de recrutar o campesinato somente em períodos de guerra-, realizaram ações decisivas para desarticular o poder dos bárbaros e, ao mesmo tempo, iniciaram uma grande campanha de difusão da seda e de seus produtos pelo oeste, além de divulgar sua cultura. Essa concepção cosmopolita atraiu aliados de diversos pontos da Ásia, permitindo que as fronteiras do Império pudessem se expandir em todas as direções. Os Han procurariam também consolidar a rota da seda, e buscariam uma aliança com os romanos (por eles chamados de Da Qin) contra os An Xi (para nós, Partos) que atrapalhavam seu comércio no Ocidente. Já a Índia sob domínio Kushan se aliaria aos chineses, e ambos viveriam um período de intensas trocas comerciais e culturais.